Ponto de Vista

Eventos esportivos e o laboratório clínico

Em fevereiro de 2014, assistimos aos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, na Rússia, o Brasil está sediando a Copa do Mundo de Futebol e, em 2016, seremos a sede de outra versão de Jogos Olímpicos. Uma questão que sempre se apresenta nestas ocasiões é quanto os atletas estarão em sua melhor forma, sem o uso de recursos artificiais, não aceitos pelas comunidades esportivas e científicas. Em uma palavra, como estaremos em relação ao doping?

A tentativa de melhorar artificialmente o rendimento esportivo, especialmente em competições, parece ter acompanhado toda a história esportiva humana. Há descrições de que na cultura Greco-romana, a ingestão de figos em grande quantidade era relacionada como uma forma de melhorar o desempenho físico dos atletas. Uma das possíveis origens do termo doping é a palavra “dop”, que nomeia uma substância presente na casca de uvas. Os guerreiros da tribo Zulu, um povo que habitava o sul da África, nos territórios hoje correspondentes à África do Sul, Lesoto, Suazilândia, Zimbábue e Moçambique, faziam uso deste recurso, ou seja, mascavam as uvas, para melhorar seu desempenho nas batalhas (3).

A Agência Mundial Anti-Doping (WADA – World Anti-Doping Agency, em inglês) define doping como “a administração ou o uso, por um atleta, de qualquer substância exógena ou de qualquer substância com ação fisiológica em quantidade anormal ou administrada por uma via anormal com o único propósito de aumentar, de forma artificial, seu desempenho em uma competição”.

Apesar deste longo histórico de reconhecido uso de aditivos, apenas em 1967, o COI – Comitê Olímpico Internacional (IOC – International Olympic Committee, em inglês) criou uma Comissão Médica, a qual estabeleceu a primeira lista de substâncias que deveriam ser consideradas como proibidas aos atletas. Esta lista classifica as substâncias em quatro grupos:

  • Estimulantes: drogas que agem diretamente no sistema nervoso central e são capazes de eliminar a sensação de fadiga e de potencializar o desempenho do atleta. As substâncias mais comumente utilizadas são anfetamina, cocaína e ecstasy.
  • Narcóticos analgésicos: tem o poder de reduzir a dor e, por esta razão, tem sido utilizados com maior frequência por atletas que desenvolvem atividades como lutas e ciclismo. A morfina e seus derivados são os mais comumente utilizados.
  • Diuréticos: como as substâncias deste grupo promovem a formação de maior volume urinário, além de reduzir o peso do atleta, podem acelerar a eliminação de eventuais outras substâncias e dificultar sua detecção, pela maior diluição urinária.
  • Esteróides anabolizantes: estão entre as drogas mais utilizadas porque favorecem o ganho de força e melhoram a condição física na fase de treinamento, contribuem para o aumento da massa muscular e reduzem o tempo de recuperação pós-trauma.

Após a criação da relação de substâncias proibidas, o laboratório passou a ter destaque, uma vez que assumiu a tarefa de identificar atletas que, eventualmente, tenham feito uso de alguma das drogas proibidas.

O primeiro protocolo sistemático para a detecção de doping ocorreu em 1972, durante os Jogos Olímpicos de Munique, quando mais de 2000 amostras de urina foram analisadas por cromatografia gasosa, com a finalidade de caracterizar a presença de estimulantes. Os testes de sangue só foram introduzidos em 1994, durante os XVII Jogos Olímpicos de Inverno de Lillehammer.

Ao longo dos anos, a lista de substâncias proibidas tem sido atualizada, assim como os recursos laboratoriais para a sua detecção tem sido aprimorados. É uma verdadeira corrida de gato e rato, na qual os avanços na farmacologia e a criatividade dos atletas competem com as tecnologias laboratoriais.

A partir destas reflexões, pareceu oportuno revisitar o papel do laboratório clínico frente à realização de eventos esportivos.

Em relação aos esteróides, a grande dificuldade é que os laboratórios farmacêuticos criam, com frequência, novos produtos que podem não ser detectados pelos métodos habitualmente utilizados. Alguns exemplos incluem o tetrahidrogestrinona, o desoximetiltestosterona e o noeboletona. Até 2003, não se tinha notícia da existência destes esteróides sintéticos. O primeiro a ser identificado foi o tetrahidrogestrinona, quando o Laboratório de Farmacologia da Universidade da Califórnia recebeu uma amostra encaminhada por um treinador anônimo, com a indicação de poder conter um poderoso anabolizante.

Uma publicação que evidencia as dificuldades laboratoriais na detecção de substâncias consideradas proibidas é a de McHugh e col. intitulada Challenges in detecting the abuse of growth hormone in Sport (McHugh) (1).

Este hormônio possui reconhecidas atividades anabólicas e lipolíticas, mas não existem evidências documentadas de que seja capaz de melhorar o desempenho físico dos atletas. Mesmo assim, está na lista de substâncias proibidas pelo COI (4) e alguns atletas fazem uso de GH.

Até recentemente, não havia teste laboratorial adequado para a caracterização de abuso de GH e as dificuldades incluem: uma eventual detecção de valores acima do limite de referência implica na necessidade de pesquisa de processos patológicos que poderiam cursar com elevação do GH, bem como descartar variação biológica, o que não é prático, em termos de triagem, exigindo avaliações clínicas detalhadas e laboratoriais periódicas após período sabidamente de abstinência de administração de GH; a sequência de aminoácidos entre o hormônio produzido pela glândula pituitária e do hormônio recombinante é exatamente a mesma, inviabilizando sua discriminação pelos métodos analíticos habituais; ambos oferecem a mesma afinidade pelos anticorpos e, praticamente, a mesma taxa de reações cruzadas; as características fisiológicas do GH, como liberação por pulsos, meia vida curta e a elevação após exercício (2) condicionariam à necessidade de serem colhidas amostras seriadas de sangue, o que se constitui em grande desafio operacional.

Dentre as abordagens que tem sido pesquisadas para tentar superar estas dificuldades, destacam-se a detecção de diferentes isoformas de GH de origem pituitária e a medição de proteínas GH-dependentes.

Como visto, a atividade laboratorial no antidoping é bastante específica e não se confunde com a rotina dos laboratórios clínicos, de tal forma que a WADA credencia um número muito reduzido de laboratórios para a realização de exames antidoping. E esta é a má notícia. No Brasil, não temos nenhum laboratório credenciado para atuar durante a Copa do Mundo de Futebol, e apenas uma promessa de que teremos um para os Jogos Olímpicos de 2016. Para a Copa, os exames antidoping serão realizados em um laboratório em Lausanne, na Suíça.

Referências

1. McHgh, CM; Park, RT; Sönksen, PH et al. – Challenges in detecting the abuse of growth hormone in sport. Clin Chem 51:9;1587-93, 2005.
2. Weltman, A; Weltman, JY; Schurrer R et al. – Endurance training amplifies the pulsatile release of growth hormone: effects of training intensity. J Appl Physiol 72:2188-96, 1992.
3. Word Anti-Doping Agency. The 2005 prohibited list: International standard. http://www.wada-ama.org/en/World-Anti-Doping-Program/Sports-and-Anti-Doping-Organizations/International-Standards/Prohibited-List/ (acessado em 10/02/2014)
4. World Anti-Doping Agency. A brief history of anti-doping, 2005. http://www.wada-ama.org/en/Footer-Links/Search/?quicksearchquery=history. (acessado em 10/02/2014)

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