Entrevista

Dra. Paula, conte-nos um pouco sua trajetória profissional. Por que a escolha da Patologia Clínica como especialização?

Sou mineira de BH e desde o ensino médio fiz minhas escolhas vocacionais pela área de ciências biológicas. Em minha graduação, pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais (FCMMG), fui apresentada às diversas áreas da medicina, e busquei eliminar as que eu tinha pouca afinidade como disciplinas de urgência, cirurgia e identifiquei meu grande interesse nas áreas de Imunologia e Genética. No meu último ano de curso iniciei o processo de busca de oportunidades de pós graduação e aprofundamento em projetos de pesquisa nessas áreas. Naquela época pensava em seguir a carreira acadêmica, em 1989 tive a felicidade de ser aceita como mestranda em um projeto na área de transplantes pelo Departamento de Cirurgia de Transplantes, na Universidade de Cambridge no Reino Unido, como bolsista do CNPq. Foi nessa fase de minha vida profissional que o encontro com a área Laboratorial aconteceu, trabalhando nas áreas de bioquímica, imunologia, histocompatibilidade e radioimunoensaio e conclui minha titulação em 1991, como mestre em Imunologia Celular. Após sete anos de rico aprendizado e desenvolvimento profissional em dois países, Inglaterra e África do Sul, retornei ao Brasil em 1995 e busquei o reconhecimento da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica – SBPC/ML em 1996, ao realizar a prova de Titulo de Especialista (TEPAC). São 25 anos que me dedico a esta especialidade com muita satisfação, orgulho e entendimento de sua relevância no setor de saúde e medicina diagnóstica.

Em 2013 a senhora foi eleita presidente da SBPC/ML do biênio 2014-2015, sendo a segunda mulher neste cargo desde 1944. O que a motivou aceitar este desafio?

Desde 1998 estou envolvida em várias áreas de atuação da SBPC/ML, como auditora do PALC – Programa de Acreditação de Laboratórios Clínicos, desde a sua fundação, como membro da Diretoria em dois biênios nas áreas de Acreditação e Administração e participante ativa em nossos eventos científicos regionais, nacionais e internacionais. Esta trajetória certamente promoveu o entendimento das expectativas deste cargo e a importância da especialidade Patologia Clínica/Medicina Laboratorial. A SBPC/ML é forte por sua atuação no setor laboratorial nacional e internacional e vem desenhando ao longo dos anos um trabalho em equipe com o modelo de gestão participativa, transparente e integrada. A busca por renovação e inovação da especialidade é desafiadora e muito produtiva, e isto quer dizer muito trabalho, o que considero em meu momento pessoal e profissional muito importante. São 18 anos na SBPC/ML em que  não me sinto sozinha, tenho colegas e amigos que me encorajam e compartilho com vocês o quanto me senti honrada com a indicação de meu nome para este cargo. Como a segunda mulher presidente da Sociedade Médica, septuagenária, da especialidade Patologia Clínica, e a primeira mulher presidente deste milênio é sim, uma grande responsabilidade, um grande reconhecimento pessoal e o ápice de minha valorização profissional.

Quais serão seus principais desafios à frente desta Sociedade?

Os desafios são vários e um dos principais, que acredito ser o de maior importância para a SBPC/ML, é o exercício de nossa missão em desenvolver a medicina laboratorial no âmbito profissional, científico e tecnológico, através de ações que não sejam pontuais, mas permanentes e continuamente aperfeiçoadas. Em nossa agenda promovemos atividades científicas regularmente, porém é necessário aumentar nossa interação com instituições de ensino, programas de residência médica, outras especialidades médicas do país e instituições internacionais. Devemos nos preparar para  o crescimento, que já está acontecendo, do Programa de Acreditação de Laboratórios Clínicos (PALC). Aumentamos muito a nossa participação nos processos de representatividade da classe laboratorial junto ao Ministério da Saúde, AMB, Conselhos Profissionais e agências regulatórias e  consideramos este também um grande desafio  com aumento importante de tempo de dedicação de todas as diretorias deste biênio e diretores regionais além da responsabilidade em representar os associados com seus diversos perfis, interesse e porte, ou seja um grupo heterogêneo e multidisciplinar. A Patologia Clínica está sofrendo uma transformação, com diminuição do número de especialistas no Brasil, evolução tecnológica veloz, cenário econômico instável e macrotendências de conscientização e empoderamento da população para o arriscado autodiagnóstico, e se faz urgente e necessário o nosso reposicionamento enquanto especialidade médica. Precisamos recuperar o nosso lugar de prestígio destacando a importância do especialista no trinômio clínica, diagnóstico e terapêutica. Neste biênio vamos rever o TEPAC, e buscar formas de incentivar o aumento do número de Especialistas e membros titulares em Patologia Clínica. E vale ressaltar o compromisso desta Diretoria do biênio 2014-2015 com a próxima diretoria em demonstrar o maior e melhor número de metas atingidas e entregar resultados positivos e projetos que perdurem.

A publicação Demografia Médica no Brasil de 2013 mostrou que a patologia clínica está entre as especialidades com maior média de idade entre os profissionais atuantes. Neste mesmo estudo, dentre as 53 especialidades médicas reconhecidas no país, a Patologia Clínica/Medicina Laboratorial ocupa o 36º lugar em número de titulados, com 1.617 especialistas. Como fazer para os médicos recém-formados se interessarem pela especialidade?

Este número é preocupante e considero esta uma crise da especialidade que vem ocorrendo há alguns anos e que pode se tornar uma oportunidade. Temos que recuperar o entendimento da atuação do Patologista Clínico no setor de saúde e sua importância na medicina diagnóstica e buscar a força jovem entre os profissionais da área. Utilizaremos os caminhos de aproximação com as instituições de ensino, atuar fortemente na graduação médica, pois com o grande aumento do número de cursos de medicina no Brasil, no setor privado,  é lamentável conhecer o pequeno número que inclui a disciplina de patologia clínica na grade curricular. E, por outro lado, nos preocupa a ampla utilização de exames laboratoriais em todas as especialidades, por isso acreditamos que valorizando a importância da disciplina, ensinando e fortalecendo o conhecimento sobre a atividade laboratorial durante a formação em medicina, aumentamos as chances de despertar o interesse dos alunos pela especialidade.

A SBPC/ML é uma sociedade científica aberta, ou seja, apesar de ser uma sociedade médica, ela abraça diversos profissionais e especialidades da área laboratorial. Acredita que este é um diferencial do modelo desta Sociedade?

Sim, esse é um forte diferencial à medida em que reconhecemos que a interface multidisciplinar é imprescindível para o setor. Estamos próximos de todas as associações e sociedades profissionais atuantes no setor diagnóstico. Nos reunimos regularmente e temos atualmente não só proximidade, como alinhamento profissional e várias ações conjuntas nas áreas científica, tecnológica, mercadológica e política.

Muitos especialistas em Patologia Clínica/Medicina Laboratorial têm origem de outras especialidades. Tem aumentado esta demanda? Por quê? E qual sua opinião a respeito?

Não temos um estudo aprofundado sobre este dado, e minha opinião é que esta situação é semelhante àcriação de subespecialidades dentro da especialidade. Como a área laboratorial atua em diversos setores da prática médica, não deveria nos surpreender um endocrinologista, por exemplo,  se interessar ou adicionar a especialidade de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial a sua formação, uma vez que seja um profissional atuante no mercado laboratorial, e regularizado pelo Titulo de Especialista, nosso setor só tem a ganhar.

Quais as tendências do mercado laboratorial no Brasil?

Eu acredito que estamos caminhando para prestar serviços para uma sociedade mais exigente, em termos de qualidade, segurança e eficiência. O cuidado com o paciente está em processo de descentralização, com o crescimento dos Testes Laboratoriais Remotos (TLR) ou Point of Care, os avanços no diagnóstico molecular e testes genéticos na rotina. As fusões e aquisições que ocorreram de forma acelerada na ultima década devem desacelerar, e com a remuneração adequada e regulação eficaz veremos a retomada dos laboratórios especializados dentro de projetos multicêntricos, assim como a revitalização dos laboratórios de pequeno porte.

Em sua opinião o que irá contribuir com os laboratórios clínicos de pequeno e médio porte a se manterem ativos no mercado?

Os laboratórios de pequeno e médio porte tem um papel importante e essencial para garantir a capilaridade do atendimento e suporte diagnóstico em todas as regiões, nos pequenos municípios incluindo as regiões remotas e pouco acessíveis do Brasil. No entanto é necessário que os serviços laboratoriais sejam reconhecidos e remunerados adequadamente promovendo a viabilidade econômica e a manutenção de suas atividades.

A senhora tem um rico histórico no segmento da qualidade laboratorial, tendo atuado muitos anos como auditora e Diretora de Acreditação do PALC – Programa de Acreditação para Laboratórios Clínicos. Com toda esta experiência e agora como presidente da SBPC/ML, como vê o mercado da Acreditação no Brasil, especialmente para os laboratórios, que são estimados em 15.000 no território brasileiro?

Este é um mercado próspero e necessário em todas as áreas do setor de saúde. Na medicina diagnóstica o setor laboratorial está entre os mais organizados e foi pioneiro, antecipando as tendências há 15 anos  no  mercado de Acreditação do setor de saúde do Brasil. Antes mesmo da regulação, exigências legais e demanda dos usuários do sistema a SBPC/ML fundou o PALC em 1998,  um programa bem estruturado, referenciado aos modelos de acreditação internacional,  com caráter voluntário e auditorias realizadas por pares profissionais e que em muito tem contribuído para o estabelecimento de um alto padrão de qualidade, mudança de cultura institucional e amadurecimento entre os laboratórios clínicos do Brasil. Estamos acompanhando o crescimento do PALC e de todos os programas de acreditação de laboratórios no Brasil, ao longo destes 15 anos, e sem dúvida nos preocupa o pequeno número percentual de instituições laboratoriais acreditadas no Brasil, pelos diversos sistemas de acreditação até dezembro de 2013, de apenas 2%, ou seja 300 instituições, porém entre estes laboratórios acreditados, avaliamos aproximadamente 30% dos exames realizados no país. Há 10 anos o setor regulatório vem se estruturando para induzir o nivelamento através da garantia da qualidade na prestação de serviços laboratoriais, gerenciar o risco e a segurança do paciente. O mercado de Acreditação Laboratorial está crescendo e neste biênio veremos o aumento de pelo menos 3% entre instituições acreditadas no setor privado e é de essencial importância que esta mudança também atinja o setor público. Considero este desafio do crescimento na Acreditação do Brasil um problema com boas perspectivas de resolução, embora tenhamos tantas razões para desacreditar do Brasil, me incluo no grupo das realistas esperançosas.

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