Artigo Comentado

“Pesquisadores questionam se diferentes formas de relatar os resultados dos testes de laboratório clínico melhoraria o atendimento aos pacientes de baixo risco de desenvolver infecções do trato urinário”

Publicado em 16 de Abril de 2014 no Dark Daily www.darkdaily.com

Artigo original em http://goo.gl/lJuRBs. Tradução e publicação autorizadas.

Mudanças simples na forma de como os exames laboratoriais são relatados aos médicos podem contribuir para melhorar a segurança do paciente e reduzir o uso inadequado de antibióticos. Estas foram as conclusões de um estudo recente publicado no Clinical Infectious Diseases (CID), revista médica da Sociedade Americana de Doenças Infecciosas – Infectious Diseases Society of (IDSA) – http://goo.gl/8h7i8Z.

Se os resultados deste estudo puderem ser repetidos em outras situações, os patologistas clínicos poderão ter uma nova abordagem para melhorar a forma de como os médicos utilizam os testes de laboratório, de modo a melhorar o atendimento aos pacientes e reduzir o custo associado ao atendimento.

Será que diferentes maneiras de relatar os resultados do laboratório poderiam ajudar os médicos?

O tema do estudo foi o exame cultura de urina e como os médicos utilizam os resultados para decidir se devem, ou não, prescrever antibióticos. Os pesquisadores avaliaram se uma simples mudança na forma como os resultados eram relatados poderia melhorar as práticas dos médicos, especialmente, para os pacientes hospitalizados, mas com baixo risco para o desenvolvimento de infecções do trato urinário (ITU).

Este projeto piloto chamado “Redução da Terapia com Antimicrobianos para Bacteriúria Assintomática entre Pacientes Internados, Não Cateterizados”, foi realizado no ano passado, no Hospital Mount Sinai, em Toronto, no Canadá.

Mudanças na forma de relatar os resultados dos exames laboratoriais produziram dois benefícios.

O estudo, em última instância, determinou que as mudanças nos relatórios do laboratório geraram dois benefícios positivos. Primeiro, reduziu a solicitação de exame de cultura de urina para os pacientes classificados como tendo baixo risco de infecção. Em segundo lugar, resultou em menos prescrições de antibióticos para esses pacientes.

Culturas de urina para pacientes hospitalizados, geralmente, são solicitadas desnecessariamente, refere uma nota publicada pela IDSA. Resultados positivos de cultura de urina de pacientes sem nenhum sintoma de ITU podem levar à prescrição de antibióticos, que não trazem nenhum benefício e podem causar danos aos pacientes, incluindo infecção por C. difficile e infecções subsequentes com bactérias mais resistentes aos antibióticos, explicou o comunicado de IDSA.

O racional do trabalho foi considerar os pacientes de baixo risco para ITUs de forma diferente dos pacientes com alto risco para infecções. Os pesquisadores descobriram que prescrições de antibióticos desnecessários foram bastante reduzidas, quando o laboratório clínico não liberava rotineiramente o relatório de resultados positivos para o médico solicitante se o paciente fosse considerado de baixo risco para infecções do trato urinário, destacou o comunicado de imprensa IDSA. Outra constatação foi a de que essa mudança na liberação dos resultados não afetou o tratamento de pacientes que necessitam de antibióticos, escreveram os autores do estudo.

Durante o estudo, em vez de relatar rotineiramente os resultados das culturas de urina positivas dos pacientes internados e não cateterizados, uma mensagem era enviada para o prontuário eletrônico do paciente. A mensagem solicitava que os cuidadores entrassem em contato com o microbiologista do laboratório se eles suspeitassem fortemente de ITU.

Os médicos lembravam que os antibióticos não são sempre a resposta.

A mensagem no registro eletrônico do paciente também lembrava aos clínicos que “a maioria das culturas de urina positivas dos pacientes internados sem sonda vesical de demora representam bacteriúria assintomática” (ASB), uma condição em que os antibióticos, em geral, não são recomendados.

Esta mensagem e a alteração na liberação do resultado do exame tiveram um efeito positivo. “Ao não relatar rotineiramente estes resultados [urocultura positiva] para os pacientes de baixo risco, a nossa intervenção reduziu a tendência de reagir aos resultados de cultura de urina positivos, incentivando os médicos a continuar buscando os resultados, caso eles tivessem elevada suspeita de ITU. Esta abordagem parece ser altamente eficaz e não requer nenhum treinamento ou educação dos prestadores de cuidados”, escreveram os autores do estudo.

Este é mais um exemplo de como pequenas mudanças na forma de como os resultados dos exames laboratoriais são relatados e utilizados podem melhorar o atendimento ao paciente, ao mesmo tempo que contribui para um menor custo global.

Outra oportunidade para os patologistas agregarem valor.

A maioria dos patologistas concorda que há muitas oportunidades para melhorar a utilização de testes de laboratório. Por exemplo, recentemente, Dark Daily relatou que pesquisadores do Beth Israel Deaconess Medical Center descreveram que 30 % de todos os exames de análises clínicas são em demasia e outros 30% dos exames são subutilizados. (Veja Dark Daily, “Study at Boston’s Beth Israel Deaconess Medical Center Determines that 30% of All Clinical Laboratory Tests Are Overused or Medically Unnecessary”, 28 de fevereiro de 2014.)

Simples mudanças na forma de como os resultados dos testes de cultura de urina foram relatados contribuíram para melhorar a segurança do paciente e uma redução na utilização de antibióticos desnecessários. O estudo foi conduzido por Jerome A. Leis, M.D., MSC, de Sunnybrook Health Sciences Centre in Toronto. (Photo Copyright University of Toronto.)

O autor principal do estudo foi Jerome A. Leis, MD, MSC, do Centro de Ciências da Saúde de Sunnybrook, em Toronto. “Na medicina, há muitos exemplos de testes que não são rotineiramente realizados, ou liberados quando eles são considerados de muito baixo rendimento ou associados a danos potenciais, e são necessários pedidos especiais nestes casos, afirmou. Acreditamos que isso seja verdade para algumas culturas de urina solicitadas em enfermarias e centros cirúrgicos, pois sabemos que a maioria dos resultados positivos ocorre em pacientes sem sintomas de infecção do trato urinário e levam à terapia desnecessária e, potencialmente, prejudicial, com antibióticos.”

Em um editorial na revista Clinical Infectious Diseases, os autores Aanand D. Naik, MD, do Houston Center for Innovations in Quality, Effectiveness and Safety no Michael E. DeBakey Veterans Affairs Medical Center; e Barbara W. Trautner, M.D., Ph.D., do Department of Medicine, Baylor College of Medicine, Houston, que acompanharam o estudo, consideraram a conduta de Leis particularmente elegante.”

Recomendações sobre quando apresentar resultados de testes de laboratório clínico.

“Pode ser prudente mudar o padrão e práticas rotineiras de liberação e apresentação dos resultados de cultura de urina em pacientes com provável bacteriúria assintomática”, escreveram Naik e Trautner. “As mudanças na forma padrão de liberação dos resultados, provavelmente, força os médicos a, mais ativamente, reavaliar a probabilidade pré-teste de infecção do trato urinário versus bacteriúria assintomática. Se os médicos não querem realmente os resultados, não há necessidade de apresentá-los como cultura de urina positiva, o que vai fazê-los desconsiderar a falta de sintomas urinários associados e desencadear um comportamento inadequado de prescrição.”

Este estudo é mais um exemplo de como mudanças simples, nos protocolos de liberação de resultados laboratoriais rotineiros, podem contribuir para significativas melhorias na segurança do paciente, bem como, reduzir os custos desnecessários de atendimento. Os resultados deste estudo devem inspirar microbiologistas e patologistas, em outros hospitais e sistemas de saúde, a envolver médicos em discussões sobre como as mudanças similares em relatar os resultados dos testes de cultura de urina poderiam contribuir para a melhoria da segurança do paciente e reduzir a utilização desnecessária de antibióticos em suas próprias instituições.

Donna Marie Pocius

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